Saiu no último sábado, dia 22/07/2006, uma matéria no jornal O Globo falando sobre as recentes produções norte-americanas e seus dubladores no Brasil. Excelente para quem quiser conferir!
Versão brasileira
Rodrigo FonsecaNão foi só de onda que Rita Lee foi convidada a curtir a ressaca de Rê Bordosa, em “Wood & Stock — Sexo, orégano e rock‘n’roll”, que, em pleno domingão, vai marcar o encerramento do 14º Anima Mundi, amanhã, no Odeon. Tom Zé, que empresta suas cordas vocais tropicalistas a Raul Seixas no desenho animado que o gaúcho Otto Guerra fez a partir das HQs de Angeli, também não está ali a passeio. Uma nova tendência muda as regras do mercado para filmes de animação no país. E ela está mais próxima dos ouvidos do que dos olhos. Nos moldes do que acontece em Hollywood, onde astros como Tom Hanks, Bruce Willis e Ben Stiller topam ceder suas vozes a heróis virtuais, personalidades brasileiras, da música e da TV, estão ocupando cada vez mais o lugar que antes cabia aos dubladores. Quem conferir hoje o longa “Os sem-floresta” — sucesso que vendeu quase 1 milhão de ingressos em duas semanas — poderá ouvir a voz Preta Gil pelos lábios de Stella, a enfezada gambá associada a um grupo de bichos assaltantes de latas de lixo e geladeiras.
— Um nome famoso sempre ajuda a promover um filme — afirma Gil Monteaux, dono do estúdio Audio Corp, em Benfica.
Além de “Os sem-floresta”, lá foram dublados outros êxitos de público infantil produzidos nos EUA pela Dreamworks. Entre eles, “O espanta-tubarões” (2004), com voz de Paulo Vilhena, e “Madagascar” (2005), em que Heloísa Périssé interpretou as falas da hipopótamo Gloria. Em setembro, quando estréia “Astérix e os vikings”, animação de Stefan Fjeldmark e Jesper Møller que já arrastou dois milhões de franceses às salas de exibição, será a vez de o elenco do programa “Pânico na TV” exercitar sua verve dubladora. Coube a Rodrigo Scarpa, o Repórter Vesgo, viver o invocado guerreiro gaulês, e a Wellington Muniz, o Ceará, o elmo de Obélix. Até Sabrina Sato, musa da atração dominical da Rede TV!, tem personagem para dublar: a jovem Abba.
— Fui chamado porque estou na TV e sei que existe preconceito por isso. O mercado da dublagem tem grandes profissionais. Mas estou me esforçando — afirma o Repórter Vesgo, que antes dublou o desenho “O mundo encantado de Gaya”. — Já estou fazendo aulas de dublagem para dar conta do trabalho com profissionalismo.
Cachês mais altos para famosos
Depois de tanto azucrinar personalidades, Vesgo sabe que agora pode ser obrigado a calçar as sandálias da humildade pelos dubladores. Ninguém na atividade chia quando um veterano como Daniel Filho — que começou a carreira correndo arás de boca de americanos dublando enlatados para estúdios como a Cinecastro — assume um papel em “Carros”. E, neste caso, sua responsabilidade é grande. Seu personagem, Doc Hudson, foi dublado pelo mito Paul Newman na versão original da produção de John Lasseter. Mas o diretor de “Se eu fosse você” tem experiência no assunto. Mas bastou alguém mais pop entrar em cena para as línguas de quem paga o aluguel de todo o mês com o soldo de dublador se contorcerem.
— Não acredito que uma criança vá ao cinema ver um desenho porque ele recebeu a voz de beltrano ou de sicrano — diz Elcio Romar, dublador profissional desde 1973, ouvido habitualmente na versão brasileira dos personagens de Michael Douglas e Woody Allen. — A discrepância que acontece quando se escala alguém famoso para dublar está no cachê.
Estruturado com base na tabela do Sindicato dos Atores e Técnicos em Espetáculos e Diversões (Sated), o valor pago por hora a um dublador está fixado em R$ 64,75 mais INSS. Mas quem vive de dublar reclama que não é esse o cálculo que se aplica quando é um Reynaldo Gianecchini (que dublou o protagonista de “Robôs”, de Carlos Saldanha) ou um Pedro Bial (que encarnou, da garganta para fora, a Irmã Feia no blockbuster “Shrek 2″) quem está por trás do microfone.
— Não sei se o fato de atores e cantores dublarem chega a ser um problema para nós. A questão dos cachês é só o que gera mal-estar, porque, na prática, ninguém nota quando um filme está bem dublado — diz o diretor de dublagem Julio Chaves, voz oficial de Mel Gibson no Brasil.
Elogios à dublagem são escassos, principalmente nas críticas de cinema nacionais. Mas bastou um astro se candidatar a um papel animado, para narizes se torcerem.
— A dublagem é uma especialização da arte do ator. Nos EUA, nenhum astro dubla preocupado com o sincronismo. Quando um Bruce Willis é chamado a dublar, ele interpreta as falas dele, criando do jeito que quiser, e depois os animadores ajeitam o movimento labial dos personagens. Aqui não. É preciso sincronia — explica Guilherme Briggs, voz de Buzz Lightyear em “Toy story”.
Criatividade ao reinventar vozes
Briggs considera injusto o ataque que se faz ao trabalho de cantores, jornalistas e galãs que se arriscam na dublagem.
— É preciso pelo menos cinco anos de prática para que um dublador atinja a maturidade. Portanto não se pode cobrar de um ator de TV que ele domine as técnicas em seu primeiro filme.
Há casos no Brasil de dubladores que desenvolveram uma carreira de talento no teatro, na TV e no cinema. Selton Mello, que nos anos 80 dublou de Charlie Brown ao Daniel San de “Karatê Kid”, só lamenta a falta de reconhecimento aos gênios da dublagem.
— Há no Brasil um gênio chamado Mário Monjardim. Ninguém que vê “Scooby-Doo” sabe o nome dele. Mas foi ele quem deu às falas do Salsicha uma identidade brasileira, meio nordestina, com aquele “Scooby-Doo, meu filho!”. Esse cara não apenas persegue bocas. Ele cria. Mas ninguém sabe. Porque a dublagem no Brasil ainda carece de reconhecimento.
Voz modelo da dublagem que se cala
Quem assistiu à versão nacional de “Os sem-floresta” sabendo que foi Bruce Willis quem dublou o guaxinim R.J. no original, deve ter tido uma surpresa. A voz brasileira habitual do ator não saía da boca do bichinho. E não foi uma troca que privilegiasse um dublador mais jovem. Considerado um modelo entre os dubladores brasileiros, Newton da Matta (1946-2006) morreu em março deste ano sem ter tido a chance de surpreender os fãs do “Duro de matar” com mais um exercício de bom humor e malícia.
— O Bruce Willis dele era tão verdadeiro que às vezes parecia que ele estava falando diretamente em português — avalia Guilherme Briggs, que dirigiu Da Matta em seu último trabalho: “Sin City”, em que dublou o tira Hartigan.
Cria do radioteatro, ator e autor de telepeças, na TV Tupi, TV Rio e Globo, Da Matta atuou como Pedrinho em uma das primeiras transposições de “O Sítio do Picapau Amarelo” para os palcos. Mas foi a partir de 1960, após um convite de Herbert Richers, que ele elegeu a dublagem como sua expressão artística recorrente. Empregando técnicas de respiração e pausa características de radionovelas, ele conseguia dar dignidade ao mais amador dos atores, consagrando-se em personagens como Lion, do desenho “Thundercats”. Até o canastrão italiano Mario Girotti, nome real de Terence Hill, parecia talentoso quando dublado por Da Matta.
— Dizem que ninguém é insubstituível — diz o dublador Elcio Romar. — Da Matta era. Com ele morre uma escola de dublagem.




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