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Tudo relacionado à dublagem e dubladores brasileiros.
Publicado por Daniel Neto e arquivado em Dublagem
Mais uma vez, o jornalista Rodrigo Fonseca do Globo Online mostra que dá o devido reconhecimento e grandes oportunidades aos dubladores brasileiros. Dessa vez, ele entrevistou o dublador Márcio Simões sobre o seu trabalho no filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, no qual empresta sua voz ao personagem Coringa, interpretado pelo falecido ator Heath Ledger.
O Globo Online: A gargalhada dublada
Neste momento em que “Batman - O Cavaleiro das Trevas” se firma entre as dez maiores bilheterias da história de Hollywood, a versão brasileira do filme, dirigida por Pádua Moreira, impressiona pela sua seleção de elenco. As atuações de Ettore Zuim (Christian Bale), Hélio Ribeiro (Aaron Eckhart) e Fernanda Fernandes (Maggie Gyllenhaal) trazem a marca de eficiência habitual desses dubladores, que estão entre os melhores de sua profissão. Mas, sob os auspícios da monstruosa atuação de Heath Ledger (1979-2008), é Márcio Simões quem melhor se destaca emprestando seu vozeirão ao Coringa. Na entrevista a seguir, Simões, que é a voz oficial de Samuel L. Jackson e Will Smith no Brasil, comenta como foi seu trabalho no melhor longa-metragem de 2008 de janeiro até agora.
O Globo Online: Heath Ledger (1979-2008) fechou sua vida com uma atuação considerada magistral pela crítica. Coube a você transpor essa “magistralidade” para o português. Qual foi a dificuldade do papel? Que nuanças da voz de Ledger foram mais complexas de reproduzir ou recriar? Houve resistência assim que o filme estreou?
Márcio Simões: Realmente, ele deu um banho de interpretação, o que tornou o trabalho mais atraente pelo desafio. Quando o Pádua, o diretor da Delart responsável pela dublagem do filme, ligou pra mim dizendo que queria que eu fizesse o papel, eu achei que a minha voz não combinaria com a do Heath Ledger, pela idade dele. Eu dublo atores como o Morgan Freeman, Danny Glover, Laurence Fishburne, que têm vozes graves, pesadas, por isso achei que minha voz ficaria pesada demais pra ele. Mas quando comecei a assistir a cópia da dublagem, vi que ele havia feito uma composição de personagem bastante sombria, com uma extensão de voz muito interessante. O mais difícil foi pegar o tom, o espírito do Coringa que ele criou, que não tem nada a ver com os outros criados anteriormente. Não fiquei sabendo de qualquer resistência quanto à dublagem do filme. Pelo contrário. Até agora, só ouvi elogios.
O Globo Online: Os cinemas têm registrado uma proliferação do número de cópias dubladas dos blockbusters que não são voltados para platéias infanto-juvenis. Isso está gerando mais ofertas de trabalho?
Márcio Simões: Sim, porque antes, basicamente, só os desenhos mais importantes passavam dublados no cinema, para atingir o público infanto-juvenil. De alguns anos pra cá, as distribuidoras passaram a fazer lançamentos simultâneos no cinema e em DVD dos blockbusters. Isso gerou não só uma oferta maior de trabalho, como serviu para levar a dublagem a um público ainda maior, facilitando para quem tem dificuldade de acompanhar as legendas, e até para quem não tem. Com a dublagem, é possível assistir ao filme em todos os detalhes, sem perder as melhores cenas olhando para as legendas. Serviu também para mostrar ao público a qualidade do nosso trabalho, que é reconhecido como um dos melhores do mundo pelos próprios distribuidores, mas é criticado por muitos aqui no nosso próprio país.
O Globo Online: A questão dos testes exigidos por algumas distribuidores, mesmo para atores que têm bonecos fixos, está sendo encarada com normalidade ou estranheza? Por quê?
Márcio Simões: Com relação aos testes exigidos pelos distribuidores, como eles são os detentores dos direitos sobre os filmes, eles decidem quem vai dublar os papéis principais. É pena que, em alguns casos, não sejam mantidas as vozes com as quais o público já se acostumou, pois as pessoas acabam se decepcionando com o resultado final. Isso faz com que muitos deixem de assistir aos filmes dublados. Há casos em que o dublador tem que ser substituído. É o que acontece quando ele falece, como aconteceu com o dublador do Bruce Willis, o Newton DaMatta, entre outros. Quando o dublador se desentende com a empresa de dublagem, ou é demitido dela, ou, em casos mais extremos, quando o dublador entra na justiça contra o distribuidor, há a necessidade da substituição da voz do ator. Mas, o que é fato é que o público percebe, fica indignado quando isso acontece e reclama, principalmente pela internet, nos fóruns, no Orkut. Os fãs de animes e mangás são os mais fiéis, pois eles acompanham todos os nossos trabalhos. Eles nos prestigiam e ficam muito chateados com essas mudanças, pois eles, muitas vezes vão assistir ao filme principalmente por causa da dublagem.

O dublador Márcio Simões e seus principais personagens dublados
O Globo Online: Você é um dos dubladores mais prolíficos (e elogiados) do país. Que bonecos te trouxeram maior respeitabilidade entre os estúdios de dublagem e entre os fãs?
Márcio Simões: Acho que o papel que mais me trouxe reconhecimento por parte do público, do distribuidor e, principalmente, das crianças foi o Gênio do desenho Aladin. A Disney chegou a me enviar uma carta elogiando meu trabalho. O Gênio foi feito pelo maravilhoso Robin Williams, que deu um show de interpretação e criatividade. Mas a dificuldade do meu trabalho foi ter que reproduzir o que ele fez tão bem, adaptando à nossa realidade, pois as piadas e as imitações que ele faz são de personagens da televisão americana. Nós não temos noção de como seria a voz de, por exemplo, David Letterman ou de Jay Leno, falando em português. Eu tive que tentar imitar personagens brasileiros, adaptar as piadas para que as crianças se identificassem com o personagem. E, pra dificultar ainda mais, ele interpretou e o desenho foi feito depois, aproveitando as expressões faciais dele. Eu não tive essa colher de chá. Tive que mudar de personagens rapidamente e ainda sincronizar as falas com o que ele fez. Já dublei muitos atores importantes em papéis legais. Fica difícil falar de todos. Mas eu curto todos os papéis que eu faço, importantes, secundários, pontas. Eu faço o que gosto e, principalmente, gosto muito do que faço.
O Globo Online: Quais são os entraves para se sobreviver só com dublagem hoje no Brasil?
Márcio Simões: O mercado de dublagem é muito competitivo, e, ao longo dos anos, a categoria foi perdendo poder aquisitivo. Atualmente, recebe-se muito menos do que quando eu comecei, há 22 anos. Hoje em dia você tem que trabalhar muito mais horas por dia para tentar se manter dignamente. É um mercado muito instável, onde se tem períodos de produção farta e períodos de quase nada. Agora, estamos passando por uma das piores fases de que eu me lembro desde que comecei a dublar. Em parte, essa crise foi causada, indiretamente, pela greve dos roteiristas de Hollywood, que atrasou muito a retomada da produção de filmes e séries. Uma outra particularidade da nossa profissão é que, diferentemente de outras profissões, onde quem já trabalha há muito tempo é reconhecido como um excelente profissional por tudo que já fez, e é mais bem remunerado por causa disso, na dublagem todos recebem o mesmo valor. Esse valor é determinado pela nossa tabela de dublagem. Em raros casos, pode-se negociar um cachê diferenciado para um trabalho específico. Em geral, um dublador mais antigo vai receber por hora o mesmo que quem está começando. E, neste período de escassez de trabalho, às vezes quem só faz papéis pequenos, por que está começando na profissão agora, consegue receber até mais do que os antigos, que, às vezes, só são escalados para dublar seus bonecos, seus fixos de série e não os papéis pequenos.
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Mais uma excelente matéria do Rodrigo Fonseca para o Blog do Bonequinho do Jornal O Globo Online, sobre a direção de dublagem do filme “Wall-E”. Confira na íntegra o texto a seguir:
O Globo Online: Dirigindo as vozes de “Wall-E”
Voz brasileira de Peter Parker, na franquia “Homem-Aranha”, Manolo Rey, um dos mais prolíficos astros das versões brasileiras dos blockbusters hollywoodianos, foi o responsável pela direção de dublagem do encantador “Wall-E”, que estréia no fim de semana (confira outros lançamentos nos cinemas brasileiros). A produção, de contornos poéticos, ganha ainda mais lirismo em sua “encarnação” dublada graças ao esmero de Rey em preservar o tom poético do filme de Andrew Stanton. Rey convocou Cláudio Galvan para recriar os acordes robóticos do construto cibernético que estrela a nova animação da Pixar. A andróide Eva ganhou o gogó da talentosa Sylvia Salustti. O longa-metragem conta ainda com os dubladores Carlos Seidl, Eduardo Borguerth, Carla Pompílio, Guilherme Briggs, Priscila Amorim e Reginaldo Primo.
Com formação teatral no Tablado, onde estudou de 1982 a 1984, Rey estreou como dublador dois anos depois, no elenco vocal de “Os aventureiros do bairro proibido”. Vez por outra, ele pode ser ouvido nos filmes de Leonardo DiCaprio, como acontece em “Prenda-me se for capaz”. Atualmente, ele dirige a versão brasileira de “Zohan - O agente bom de corte”, capitaneando a dublagem de Alexandre Moreno como Andam Sandler. Nesta entrevista, ele explica como é pilotar a adaptação de uma animação da Disney para a língua portuguesa.

O GLOBO ONLINE: Por conta de todo o preconceito existente contra a dublagem, existe uma enorme dificuldade entre os leitores de compreender o que significa direção em dublagem. Como é, na prática, o ofício de dirigir uma versão brasileira?
MANOLO REY: A direção consiste em reger atores, como um maestro rege a orquestra. No caso, como os atores de dublagem não vêem o filme antes, o diretor deve passar a idéia exata do que ele quer em cada cena. A escalação é uma etapa muito importante. Um dublador escalado para o papel errado, ainda que seja um papel pequeno, pode prejudicar a qualidade de todo o filme. Isso, sim, gera o preconceito. Vemos muitas escalações equivocadas.
O GLOBO ONLINE: Que parâmetros estéticos são considerados em uma dublagem para uma animação da Disney? Existem termos que devem ser evitados nos diálogos no ato da tradução ou nos improvisos de bancada?
MANOLO REY: Quanto à direção de uma animação da DISNEY, eu diria que o principal é tentar passar o sonho, vender um novo mundo. Lembro que, quando criança, eu lia todas as revistinhas da Disney, como “Tio Patinhas”, “Pato Donald”, “Zé Carioca” e “Almanque Dinsey. Na época, imaginava aquelas cenas, aquelas situações. Assim também funciona a dublagem. Temos que passar a verdade através do sonho. O sonho tem que ser verdadeiro. Evitamos alguns diálogos em função da classificação de cada projeto. Por exemplo, num projeto infantil, não tem nada a ver colocar um termo que tenha conotação sexual. Evitamos todo e qualquer tipo de cacófato, por exemplo: “Me jogar” (que soa como “Mijo gar”). Devemos sempre vigiar todo e qualquer improviso dos dubladores, pois, para aumentar falas, muitos dubladores acrescentam o nome do personagem, e, em algumas cenas, pode ser que os personagens não se conheçam. Isso é um erro.
O GLOBO ONLINE: Como se deu a escolha do elenco de dublagem de “Wall-E”?
MANOLO REY: A escolha de vozes para WALL-E ocorreu bem antes do processo de dublagem. Os testes foram feitos com o Garcia Jr (consagrado dublador de personagens como He-Man, que, atualmente, é diretor de criação da Disney). Ele coordenou todo o projeto. Na época, ele fez testes para dois personagens, o comandante e o piloto automático. Os outros, fui eu que escalei, seguindo critérios meus. Muitas vezes, a animação pode ser mais difícil. Já vi dublador querendo fazer desenho animado com vozes diferentes da sua voz normal. E, no caso de Wall-E, vemos que os personagens têm vozes normais. Só os robôs têm voz diferente. O que quero dizer? Simples, não existe voz de gordo. Mas, às vezes, acontece de um dublador querer fazer um “tipinho”, só porque o personagem é gordo, ou é magro, ou é feio, ou é bonito. Na animação, nem sempre se deve fazer tipo. Na Disney, explora-se a voz normal. Raramente, faz-se tipo. Trabalha-se com a voz normal, que se encaixa no personagem, e passa muito mais verdade. Eu gosto disso na Disney.
O GLOBO ONLINE: Como é o processo de dublagem de animações em relação a filmes com atores. A dificuldade é maior do que em animações como “Wall-E”?
MANOLO REY: Não diria que entre animação e filmes com atores há uma diferença no nível de dificuldade. Há estilos. Já vi animações dificílimas, e filmes com atores reais facílimos. Atualmente, dirijo uma série chamada “Grey’s anatomy”, que considero muito difícil, pois usa termos médicos que nunca são fáceis de falarmos. Falar palavras difíceis, interpretando e sincronizando ao mesmo tempo, é sempre uma dificuldade maior.
O GLOBO ONLINE: Sua voz é associada a personagens jovens, de forte apelo heróico. Que elementos dramáticos da arte de atuar você utiliza como referência na sua interpretação? Existem diferenças entre dublar um grande ator, como Leonardo DiCaprio, e um canastrão?
MANOLO REY: Eu procuro me reciclar sempre. Pelo menos uma vez por ano, eu faço alguma oficina de interpretação, seja para TV ou para teatro. Nos últimos dez anos, fiz 13 oficinas de interpretação para TV com o diretor Ignácio Coqueiro, de quem sou fã. Isso é muito importante para todo ator: estudar. Não devemos parar nunca de estudar e de aprender. Quanto a grandes atores e canastrões, sempre existe uma diferença. Interpretar canastrões sempre é mais difícil, pois, se melhorarmos a interpretação deles, podemos estragar o filme, e, se não melhorarmos, também podemos estragar. Por isso, todo cuidado é pouco. Quanto ao Leonardo DiCaprio, especificamente, eu dublei ele em “Romeu + Julieta”, e foi um prazer sem igual. Dublei um texto de Shakespeare com naturalismo. Assim foi no original. Assim procuramos fazer na dublagem.
O GLOBO ONLINE: Existe uma carência enorme em relação a um memorialismo da dublagem no Brasil. O site Clube Versão Brasileira (http://www.quem.dubla.com.br) tem sido uma alternativa no esforço de se produzir um banco de dados da dublagem nacional. Por que há tanta dificuldade de se criar uma história da dublagem neste país?
MANOLO REY: O site foi criado por mim, Clécio Souto, Mariangela Cantu e Guilherme Briggs, numa tentativa de registrar a memória da dublagem brasileira. Na realidade, eu já havia criado o Clube Versão Brasileira em 1990. Era uma caixa postal, de número 150 ou 151, não lembro com certeza. Publiquei essa caixa postal em várias revistas e jornais. Em pouco mais de três meses, eu recebi mais de mil cartas de pessoas querendo saber sobre os dubladores. Só parei porque começaram a chegar algumas cartas ofendendo, e, como entregava as cartas fechadas aos colegas, acabava ficando numa situação ruim. A dificuldade nem é tão grande assim, é mais uma questão de força de vontade. Vou te dar um bom exemplo. Há colegas que dizem: “Ah, não gosto de ficar registrando meus bonecos (atores estrangeiros). Não esquento com isso”. Mas quando um ator que eles dublam aparece dublado por outro, esses colegas se revoltam. Portanto, o problema todo é de força de vontade. Temos que correr atrás e fazer alguma coisa nós mesmos, sem esperar que todas as empresas de dublagem se reúnam e criem um órgão, como o IMDB (Internet Movie DataBase) para registrar todos os trabalhos. Isso jamais acontecerá.
O GLOBO ONLINE: Que grandes vozes da dublagem foram esquecidas?
MANOLO REY: Tantas e tantas. Vou citar alguns dubladores que já se foram e cujas vozes não ouço mais nas reprises da TV: Paulo Pinheiro, André Luiz, Sonia Ferreira, Nelly Amaral, Garcia Neto, Turelli, Marcos Miranda, Paulo Flores, André Filho, Newton DaMatta, a quem ainda ouvimos de vez em quando, e Alexandre Lillipiani. Há outros que simplesmente abandonaram a profissão, como Ioney (Silva, dublador do personagem Tutubarão) ou Sonia de Moares.
O GLOBO ONLINE: Como você vê o ofício da dublagem hoje neste período em que grandes canais a cabo investem em programações dubladas?
MANOLO REY: A perspectiva seria até boa, não fossem colegas que aceitam qualquer condição de trabalho, ainda que seja inferior às condições estabelecidas a partir de negociações feitas pelo sindicato. Atualmente, dirijo na Delart, e há empresas que cobram um terço do que é cobrado lá. Como conseguem? Simples, diretores, tradutores e dubladores aceitaram trabalhar por menos, e em condições contrárias às estabelecidas por nós. Acredito que a dublagem só vai crescer quando houver maior cobrança quanto à qualidade. O público tem que reclamar do que é ruim e elogiar o que gostou. Claro, isso deve acontecer sem bairrismo e sem preconceitos de qualquer tipo. Quando isso acontecer, teremos filmes e séries com dublagem de qualidade realmente.
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Mais uma vez, o jornal O Globo deu destaque à dublagem brasileira, por méritos do jornalista Rodrigo Fonseca. Ele fez uma entrevista com o dublador Marco Ribeiro, responsável pela voz do ator Robert Downey Jr. para o filme “Homem de Ferro” que estreou na última sexta-feira, dia 02 de maio.
Marco Ribeiro, uma voz que não enferruja
Das 500 cópias de “Homem de Ferro” lançadas no Brasil, 150 chegam com uma caprichada versão brasileira. Parte significativa desse capricho garantido à dublagem se deve ao trabalho do carioca Marco Ribeiro. Aos 37 anos, ele é um dos atores mais prolíficos do país quando o assunto é emprestar a voz a produções estrangeiras. Ribeiro é o dublador oficial de Tom Hanks, Jim Carrey e Antonio Banderas no Brasil. Robert Downey Jr. deve ser acrescentado com todos os méritos a essa lista de talentos. Basta ouvir os primeiros 20 minutos do filme de Jon Favreau para se ter essa impressão. Assim como Downey Jr. se reinventa artisticamente interprentando o industrial Tony Stark, Marco Ribeiro se recria dublando o ex-junkie.
Nascido e criado nas imediações da Tijuca, de família evangélica, Marco Antonio Ribeiro da Silva é também pastor na Assembléia de Deus. Mas foi como ator que ele fez sua voz circular nacionalmente. Sua estréia na dublagem se deu 1986, quando entrou para o time da Herbert Richers. Começou participando de seriados como “A gata e o rato” e “Combate no Vietnã”. Com o tempo, passou a alcançar papéis maiores e mais densos, por merecimento e perseverança. Sua vitalidade dramática já foi louvada pela crítica várias vezes. Um caso recente que ilustra seu talento é “Horton e o mundo dos Quem”, animação em que ele dubla o serelepe elefantinho que dá título ao longa-metragem. Atualmente, ele também é diretor de um estúdio próprio, a Audionews, que fica na Usina.
A atuação de Ribeiro dublando Robert Downey Jr. se destaca à frente de tudo o que ele fez desde sua estréia profissional. Nesta entrevista, Ribeiro comenta como foi feita a versão nativa de um dos blockbusters mais aguradaddos do ano. A dublagem foi dirigida por Guilherme Briggs (a voz de Buzz Lightyear) e contou com a colaboração de mestres do setor como Julio Chaves, que cede o gogó a Jeff Bridges. Além das nuanças artísticas de seu ofício, Ribeiro comenta questões políticas que hoje complicam a rotina profissional dos dubladores cariocas. Confira o pingue-pongue a seguir:
O GLOBO: Todo dublador é ator. O registro profissional de ator é uma exigência. Mas para além dessa formação prévia, o que um dublador precisa conhecer para interpretar com o máximo de riqueza artística?
MARCO RIBEIRO: É fundamental que um dublador tenha boa leitura. Parece meio óbvio, mas nota-se muita dificuldade nesta área. Também acho fundamental, em qualquer profissão, o amor ao trabalho. Também é importante bons reflexos, um bom nível de cultura geral e, pelo menos, alguma noção de inglês. Este último ítem pode ajudar muito e ser fundamental em certos aspectos. Também seria interessante que o dublador soubesse cantar, pois assim ele abriria mais o campo de trabalho e poderia ter mais possibilidades para ser escalado no caso de desenhos com canções. Habilidades de mudar a voz e brincar com a voz também contam muito. Quanto mais versátil um dublador for, mais chances ele terá. Outras questões importantes: humildade e jogo de cintura. Sem estas duas virtudes é difícl sobreviver na dublagem.
O GLOBO: Você é a voz oficial de Tom Hanks no Brasil. Hanks é um dos atores mais prestigiados de Hollywood por seu talento dramático. Qual é o grau de exigência dramática que um ator de talento como Hanks impõe a um dublador? Quais são as dificuldades de se dublar um canastrão?
RIBEIRO: Já dublei muitos canastrões. Fiz vários galãs de novela mexicana, filmes de lutas marciais… Não escolhemos papel. Dublamos de tudo um pouco. Mas, com certeza, quando dublamos bons atores, somos mais exigidos. Crescemos muito nessas horas. É bom fazer personagens mais complexos, com nuanças de interpretação. Isso ajuda no crescimento do ator como dublador. Fiz um filme do Tom Hanks, “Terminal”, no qual tive que falar búlgaro. Com a assistência de uma pessoa do próprio consulado e com a direção de Marlene Costa (uma das maiores dubladoras do país), conseguimos realizar um lindo trabalho de dublagem. Mas temos que dançar conforme a música. Tenho ouvido muita besteira por aí do tipo “a dublagem não deve melhorar o original”. Isso é uma grande bobagem. Já vi vários e vários trabalhos que só se tornaram assistíveis após a dublagem. Tudo depende da competência do diretor em escalar corretamente e fazer o dever de casa corretamente.
O GLOBO: Que dubladores te serviram como parâmetro de qualidade no início da tua trajetória? Que revelações da dublagem você destacaria hoje?
RIBEIRO: Eu dublo há 22 anos e dirijo dublagens há 16. Quando iniciei, em 1986, era tudo muito diferente. Havia um amor maior, um respeito maior pelos profissionais e também havia dubladores maravilhosos. Seria injusto esquecer de alguém. Existiam atores fantásticos como Magalhães Graça, Marcus Miranda, André Filho, Newton DaMatta, Andre Luiz, Milton Luiz, Francisco Turelli, Paulo Flores, Paulo Pinheiro, Dario Lourenço, Sonia Ferreira, Nely Amaral, Vera Miranda. Muita gente boa se foi. Mas muita gente boa ainda está aqui, como Orlando Drumond, Miguel Rosemberg, Jomery Pozzoli. Hoje também temos talentos como Guilherme Briggs, Alexandre Moreno, Adriana Torres, Matheus Perrise, Yan Gesteira, Miriam Ficher, Mauro Ramos.
O GLOBO: Robert Downey Jr., o Tony Stark do filme, é um exemplo similar a Tom Hanks em matéria de talento. O que você poderia comentar da composição de Stark na dublagem? Que exigências o personagem te impôs, em função do talento dramático de Downey Jr.?
RIBEIRO: Robert tem uma maneira muito peculiar de interpretar. Ele é um excelente ator da linha do Actor’s Studio. É bem natural. Então, na dublagem, junto com o Guilherme Briggs, procuramos seguir esta linha descontraida de interpretação. Ele fala muito rápido, jogando as falas. É um desafio tentar ser o mais natural possível, mantendo o sincronismo e a dicção nas falas rápidas. Deu trabalho, mas foi.
O GLOBO: Qual é o peso de se trabalhar com um diretor de dublagem com o dinamismo de Guilherme Briggs na dublagem de um blockbuster como “Homem de Ferro”?
RIBEIRO: Sem rasgar seda, é muito bom trabalhar com o brigs, alguém que eu, praticamente, vi chegando na dublagem e que cresceu de uma maneira fantástica, sem deixar que o sucesso subisse à cabeça. Ele nos deixa muito à vontade, sem paranóias interpretativas.
O GLOBO: A que você atribui o preconceito contra a dublagem que costuma existir por parte de uma certa intelectualidade que repudia filmes em versão brasilera? Qque poderia ser feito para reverter o repúdio à dublagem?
RIBEIRO: Moralizar a profissão é um caminho. Nos últimos anos, a dublagem foi inundada por muita gente que só quer ganhar dinheiro e que não está nem aí para a qualidade artística. Há pessas que trabalham de má vontade. Isso se dá tanto com os atores quanto com os empresários de dublagem. Muitos criticam sem saber. Sem conhecimento, abrem a boca só para ouvir o som da própria voz. Se pegarmos alguns filmes dublados em DVD, dá vontade de chorar. São empresários aventureiros da dublagem, que oferecem preços baixíssimos aos clientes. Assim, a qualidade também vai por água abaixo. Escalações malfeitas, vozes terríveis, interpretações sofríveis, feitas por pseudo-atores que se vendem aos acordos mais baratos e fazem trabalhos péssimos. Eu nem os chamaria de atores, mas de oportunistas.
O GLOBO: Como você avalia o boom da dublagem paulista. Do ponto de vista estético, o trabalho de dublagem feito em São Paulo costuma ser alvo de muitas críticas. A maioria dos comentários depreciativos contra o trabalhos dos dubladores paulistas aponta uma falta de rigor dramático na interpretação, além de erros de sincronia. A dublagem dos tempos da BKS era uma exceção. O mesmo se fala de grandes profissionais ainda em atividade por lá, como o time exemplar que fez as vozes do seriado “Chaves”, que é um marco entre as versões brasileiras. Mas, no dia-a-dia, as queixas contra os filmes dublados em solo paulistano só faz crescer. Estranhamente, o mercado lá parece estar crescendo. O que está acontecendo?
RIBEIRO: O que acontece em São Paulo com relação à dublagem é surreal. Os órgãos competentes deveriam atentar mais para esta situação. Tenho alguns colegas lá. E, em maioria, os dubladores são bons atores, honestos e têm bom caráter. Mas existe uma minoria que é terrível e que faz acordos e pacotes com empresas de dublagem que usam péssimos profissionais para baratear de forma desonesta os valores da dublagem para os clientes. Infelizmente, o Sated (Sindicato dos Atores e Técnicos em Espetáculos de Diversões), em São Paulo, não é tão atuante quanto o Sated do Rio. Em São Paulo, algumas empresas não cumprem o acordo coletivo de trabalho, pagam aos atores valores inferiores aos do Rio de Janeiro, não usam nota contratual, trabalham com profissionais sem registro etc. E nada acontece.
O GLOBO: É daí que tem vindo a alegações de baixa qualidade artística nas dublagens feitas em São Paulo?
RIBEIRO: Algumas vezes, aluguei DVDs na locadora e, simplesmente, não consegui assistir aos filmes na versão brasileira, pois eles eram dublados em São Paulo com péssimas vozes, escalações terríveis, interpretações sofríveis e qualidade técnica abaixo da crítica. Penso que algumas distribuidoras de filmes e emissoras de TV deveriam atentar mais para a qualidade dos filmes que vendem e exibem, porque muitas dublagens de péssima qualidade estão sendo realizadas em empresas que não cumprem em nada as leis trabalhistas e as demais obrigações que deveriam ser cumpridas. Por isso, elas fazem preços muito abaixo do mercado, praticando o chamado dumping. Isso é uma vergonha, pois, no Rio, as empresas de dublagem têm que cumprir várias exigências do acordo coletivo de trabalho e, por isso, muitos trabahos estão indo para São Paulo. Os filmes são dublados lá não por que em São Paulo eles tenham mais qualidade do que nós, mas, simplesmente, porque, no Rio, os dubladores e empresas cumprem as regras estabelecidas. Aqui, cumprem-se acordos e, em São Paulo, em vários casos, nada disso acontece. Daí, eles podem cobrar preços bem mais baixos, que alguns clientes, inocentemente, pagam, sem saber que a qualidade do seu produto também cai terrivelmente. Não é mais caro dublar no Rio. A diferença é que, aqui, cumprimos as regras estabelecidas, temos bons profissionais, em todos os sentidos e, por isso, podemos dar melhor qualidade aos nossos produtos. Que eles cobrem preços mais adequados à realidade do mercado e vamos disputar somente na qualidade e no serviço prestado. Isso não seria justo?
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Publicado por Daniel Neto e arquivado em Dublagem
Texto interessantíssimo, de autoria do dublador Nelson Machado, sobre o que acontece no Brasil em relação à dublagem. Espero que gostem.
Qual o problema com o português?
Nelson Machado (Website)
Quando você vai ao teatro assistir a uma peça de Tchekov, você exige que a montagem seja em russo? E se for um Molière, os atores têm que falar em francês, senão você acha que está assistindo a um subproduto? Se você estiver lendo um livro que contenha pensamentos de Confúcio ou a biografia de Mao-Tse-Tung, só serve se vier escrito em caracteres chineses? Um gibi, então, uma leitura leve e inconseqüente, uma coisa só pra descontrair… Só teria valor a saga com a morte, o funeral e a volta do Super-Homem se as bancas de jornais vendessem unicamente a versão americana, em inglês?
Que perguntas mais absurdas, não? Então por quê tanta gente só se sente culta, elegante e inteligente assistindo a filmes em versão original, com legendas? O que há de errado nos filmes dublados?
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Publicado por Daniel Neto e arquivado em Dublagem
Faleceu hoje o talentosíssimo ator e dublador Borges de Barros, dono da voz do personagem Dr. Zachary Smith da série “Perdidos no Espaço” e Moe de “Os Três Patetas”. Um de seus personagens principais, conhecido pelo grande público brasileiro, foi o mendigo milionário do bordão “Nobre colega”, apresentado na Praça da Alegria pelo Manoel de Nóbrega e posteriormente em A Praça é Nossa pelo Carlos Alberto de Nóbrega.
Em novembro, nova perda na dublagem: Helena Samara, que dublava a personagem Wilma Flintstone, do desenho “Os Flintstones”; Endora, do seriado “A Feiticeira”; Maureen Robinson, no seriado “Perdidos no Espaço” e Dona Clotilde (a conhecida Bruxa do 71), do seriado Chaves.
Perda igualmente irreparável em agosto foi a do versátil ator, dublador e compositor Eleu Salvador, que dublou com maestria o Professor Emmet Brown em toda a trilogia “De volta para o futuro”; o chefe Kurata no seriado japonês “Spectreman”, além de diversos personagens secundários do desenho “Pica-pau”.
Também partiu em setembro o magnífico Nilton Valério, que dublou personagens da infância de muita gente: Falcão Azul, do desenho “Bionicão”; Batman, no desenho “Super Amigos” e dublou frequentemente o ator Michael Keaton (filmes “Batman” 1 e 2, “Os fantasmas se divertem - Beetlejuice”).
Em março, a voz encantadora de Neuza Tavares calou-se para sempre. Ela era a dubladora de de atrizes como Faye Dunaway, Kay Kendall, Doris Day, Cheryl Ladd e tantas outras. Em desenhos animados, sua voz se fez presente na personagem Diabolyn, do desenho “Cavalo de Fogo” e Sra. Pacman, do desenho “Pacman” (Comilão, no Brasil).
Descansem em paz e que suas memórias e obras, dubladas ou não, sejam sempre lembradas com honra e dignidade que merecem!
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