O boiadeiro e o Rio
Ontem, ao voltar pra casa de ônibus do trabalho, conheci uma pessoa.
Ele entrou no ônibus e ficou parado na roleta. Aqui no Rio, as roletas (ou catracas como também são conhecidas) ficam na parte da frente. Aparência de cansado, com chapéu de boiadeiro na cabeça, camisa azul escura aberta e suas coisas ao lado do motor do ônibus. Começou a falar, como a maioria dos pedintes de ônibus, mas teve que ficar do lado da roleta que se fica antes de pagar a passagem porque nem dinheiro pra isso ele tinha. “Se não quiserem olhar pra mim, não precisa não, minha gente. Podem ficar só ‘assuntando’ (escutando) que pra mim já está bom demais”.
Segundo ele, saiu de sua casa, no Mato Grosso do Sul, para vir ao Rio de Janeiro trazer a esposa para fazer uma cirurgia ou transplante num hospital, juntamente com a família inteira. “Não sei ler nem escrever, mas tenho aqui os documentos pra provar pra polícia que sou homem de bem e trabalhador. E se tiver alguém aí que seja da polícia e quiser, pode vir aqui conferir esses documentos porque estou falando a verdade”, numa inocência que as pessoas desta cidade já perderam há tempos.
E chovia muito no final da tarde e início da noite de ontem, como foi bem divulgado pelos veículos de comunicação. Estávamos na Av. Maracanã, quase esquina com a rua São Francisco Xavier, porque o motorista evitou passar pelo seu caminho costumeiro da Radial Oeste, lado oposto ao que estávamos. O sujeito tinha um jeito bem humilde, como o pessoal do interior sabe ser: falava errado, e carregado no sotaque e gírias do interior. Não mendigava pura e simplesmente como estamos acostumados a ver todos os dias, como o nosso “amigo camelô”. Mendigava porque precisava: estava no Rio porque não tinha condições de voltar pra sua casa, onde sua esposa já estava. As despesas de hospital e retorno pro Mato Grosso do Sul haviam sido pagas pelo governo (ano de eleição eles fazem tudo, né?), mas somente para sua esposa. Ele e os filhos estavam ali, no ônibus.
Ele mendigava porque precisava comer, porque precisava dar alguma coisa pros filhos comerem. A profissão dele? Era boiadeiro, desses que passa dias sentado numa sela de cavalo para tocar um rebanho inteiro de um lugar para outro no pantanal, desses que tem que ir para a casa de abate “destrinchar” um boi inteiro e mandar “aqui pra cidade grande, pra mesa de vocês”, desses que tem que tomar conta da sede pro patrão que tá na capital, desses que pega na enxada para capinar um roçado inteiro no sol ou na chuva. Gente humilde, que se encanta e ao mesmo tempo se espanta com a “grandiosidade” que é a cidade que um dia já foi a capital do Brasil.
“Eu só tenho isso aqui, minha gente” e nos mostrava suas mãos calejadas de trabalho pesado. “Aqui na cidade não tem trabalho pra um peão – PEÃO“, frisava ele – “como eu. Eu sou peão, minha gente e aqui na cidade grande não tem trabalho pra mim, não tem não. Mas eu não tenho vergonha não: se vocês estiverem precisando de alguém pra limpar sua casa, seu banheiro, capinar seu quintal, eu faço isso sim por um prato de comida porque eu preciso. É porque eu tô precisando mesmo.”, dizia ele toda vez. O pessoal dentro do ônibus – e até eu mesmo – ficou sensibilizado e notava-se que as palavras dele eram verdadeiras. Tanto que muita gente chegou a dar uns trocados pra ele.
Eu estava sentado, como costumeiramente faço, no fundão do ônibus e próximo à janela. Eu poderia ter levantado e ido lá colaborar com ele, mas minha preguiça corporal não me deixou levantar. Ele prosseguia: “Só quem sabe de tudo é o nosso senhor Jesus. Hoje eu estou aqui no meio de vocês, pedindo uma ajuda. Quem sabe amanhã vocês não poderão me reencontrar lá no meu Mato Grosso, não é mesmo, minha gente?”.
Por breves instantes, me coloquei no lugar dele e imaginei o quão sacrificada devia ser a vida daquele homem que, aparentemente, parecia trabalhador: sozinho na cidade grande, filhos junto com ele, no meio de um trânsito de lascar, um temporal enorme, sem perspectivas de voltar pra casa a curto prazo, a esposa recém-operada em casa… Eu particularmente me emocionei e – até mesmo agora, enquanto escrevo esse texto tentando me lembrar da história dele – algumas lágrimas discretas de pena dele me ganharam os olhos. Desejei de coração que ele pudesse retornar pra sua vida pacata do interior, sem a correria e violência dessa cidade que por vezes é maravilhosa e também chega a ser dolorosa.
Ao final, já na R. Felipe Camarão, o peão agradeceu à todos, juntou seus pertences e desceu do ônibus, tendo as conversas dos passageiros voltadas para a pequena – mas comovente – história de seus últimos meses. Vá em paz, boiadeiro. Que você consiga retornar pro seu lar, junto daqueles que te amam. E quem sabe possamos realmente nos encontrar e relembrar esse dia, mas com muita alegria no lugar da tristeza de agora.
