Mais uma vez, o jornalista Rodrigo Fonseca do Globo Online mostra que dá o devido reconhecimento e grandes oportunidades aos dubladores brasileiros. Dessa vez, ele entrevistou o dublador Márcio Simões sobre o seu trabalho no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, no qual empresta sua voz ao personagem Coringa, interpretado pelo falecido ator Heath Ledger.
O Globo Online: A gargalhada dublada
Neste momento em que “Batman – O Cavaleiro das Trevas” se firma entre as dez maiores bilheterias da história de Hollywood, a versão brasileira do filme, dirigida por Pádua Moreira, impressiona pela sua seleção de elenco. As atuações de Ettore Zuim (Christian Bale), Hélio Ribeiro (Aaron Eckhart) e Fernanda Fernandes (Maggie Gyllenhaal) trazem a marca de eficiência habitual desses dubladores, que estão entre os melhores de sua profissão. Mas, sob os auspícios da monstruosa atuação de Heath Ledger (1979-2008), é Márcio Simões quem melhor se destaca emprestando seu vozeirão ao Coringa. Na entrevista a seguir, Simões, que é a voz oficial de Samuel L. Jackson e Will Smith no Brasil, comenta como foi seu trabalho no melhor longa-metragem de 2008 de janeiro até agora.
O Globo Online: Heath Ledger (1979-2008) fechou sua vida com uma atuação considerada magistral pela crítica. Coube a você transpor essa “magistralidade” para o português. Qual foi a dificuldade do papel? Que nuanças da voz de Ledger foram mais complexas de reproduzir ou recriar? Houve resistência assim que o filme estreou?
Márcio Simões: Realmente, ele deu um banho de interpretação, o que tornou o trabalho mais atraente pelo desafio. Quando o Pádua, o diretor da Delart responsável pela dublagem do filme, ligou pra mim dizendo que queria que eu fizesse o papel, eu achei que a minha voz não combinaria com a do Heath Ledger, pela idade dele. Eu dublo atores como o Morgan Freeman, Danny Glover, Laurence Fishburne, que têm vozes graves, pesadas, por isso achei que minha voz ficaria pesada demais pra ele. Mas quando comecei a assistir a cópia da dublagem, vi que ele havia feito uma composição de personagem bastante sombria, com uma extensão de voz muito interessante. O mais difícil foi pegar o tom, o espírito do Coringa que ele criou, que não tem nada a ver com os outros criados anteriormente. Não fiquei sabendo de qualquer resistência quanto à dublagem do filme. Pelo contrário. Até agora, só ouvi elogios.
O Globo Online: Os cinemas têm registrado uma proliferação do número de cópias dubladas dos blockbusters que não são voltados para platéias infanto-juvenis. Isso está gerando mais ofertas de trabalho?
Márcio Simões: Sim, porque antes, basicamente, só os desenhos mais importantes passavam dublados no cinema, para atingir o público infanto-juvenil. De alguns anos pra cá, as distribuidoras passaram a fazer lançamentos simultâneos no cinema e em DVD dos blockbusters. Isso gerou não só uma oferta maior de trabalho, como serviu para levar a dublagem a um público ainda maior, facilitando para quem tem dificuldade de acompanhar as legendas, e até para quem não tem. Com a dublagem, é possível assistir ao filme em todos os detalhes, sem perder as melhores cenas olhando para as legendas. Serviu também para mostrar ao público a qualidade do nosso trabalho, que é reconhecido como um dos melhores do mundo pelos próprios distribuidores, mas é criticado por muitos aqui no nosso próprio país.
O Globo Online: A questão dos testes exigidos por algumas distribuidores, mesmo para atores que têm bonecos fixos, está sendo encarada com normalidade ou estranheza? Por quê?
Márcio Simões: Com relação aos testes exigidos pelos distribuidores, como eles são os detentores dos direitos sobre os filmes, eles decidem quem vai dublar os papéis principais. É pena que, em alguns casos, não sejam mantidas as vozes com as quais o público já se acostumou, pois as pessoas acabam se decepcionando com o resultado final. Isso faz com que muitos deixem de assistir aos filmes dublados. Há casos em que o dublador tem que ser substituído. É o que acontece quando ele falece, como aconteceu com o dublador do Bruce Willis, o Newton DaMatta, entre outros. Quando o dublador se desentende com a empresa de dublagem, ou é demitido dela, ou, em casos mais extremos, quando o dublador entra na justiça contra o distribuidor, há a necessidade da substituição da voz do ator. Mas, o que é fato é que o público percebe, fica indignado quando isso acontece e reclama, principalmente pela internet, nos fóruns, no Orkut. Os fãs de animes e mangás são os mais fiéis, pois eles acompanham todos os nossos trabalhos. Eles nos prestigiam e ficam muito chateados com essas mudanças, pois eles, muitas vezes vão assistir ao filme principalmente por causa da dublagem.

O dublador Márcio Simões e seus principais personagens dublados
O Globo Online: Você é um dos dubladores mais prolíficos (e elogiados) do país. Que bonecos te trouxeram maior respeitabilidade entre os estúdios de dublagem e entre os fãs?
Márcio Simões: Acho que o papel que mais me trouxe reconhecimento por parte do público, do distribuidor e, principalmente, das crianças foi o Gênio do desenho Aladin. A Disney chegou a me enviar uma carta elogiando meu trabalho. O Gênio foi feito pelo maravilhoso Robin Williams, que deu um show de interpretação e criatividade. Mas a dificuldade do meu trabalho foi ter que reproduzir o que ele fez tão bem, adaptando à nossa realidade, pois as piadas e as imitações que ele faz são de personagens da televisão americana. Nós não temos noção de como seria a voz de, por exemplo, David Letterman ou de Jay Leno, falando em português. Eu tive que tentar imitar personagens brasileiros, adaptar as piadas para que as crianças se identificassem com o personagem. E, pra dificultar ainda mais, ele interpretou e o desenho foi feito depois, aproveitando as expressões faciais dele. Eu não tive essa colher de chá. Tive que mudar de personagens rapidamente e ainda sincronizar as falas com o que ele fez. Já dublei muitos atores importantes em papéis legais. Fica difícil falar de todos. Mas eu curto todos os papéis que eu faço, importantes, secundários, pontas. Eu faço o que gosto e, principalmente, gosto muito do que faço.
O Globo Online: Quais são os entraves para se sobreviver só com dublagem hoje no Brasil?
Márcio Simões: O mercado de dublagem é muito competitivo, e, ao longo dos anos, a categoria foi perdendo poder aquisitivo. Atualmente, recebe-se muito menos do que quando eu comecei, há 22 anos. Hoje em dia você tem que trabalhar muito mais horas por dia para tentar se manter dignamente. É um mercado muito instável, onde se tem períodos de produção farta e períodos de quase nada. Agora, estamos passando por uma das piores fases de que eu me lembro desde que comecei a dublar. Em parte, essa crise foi causada, indiretamente, pela greve dos roteiristas de Hollywood, que atrasou muito a retomada da produção de filmes e séries. Uma outra particularidade da nossa profissão é que, diferentemente de outras profissões, onde quem já trabalha há muito tempo é reconhecido como um excelente profissional por tudo que já fez, e é mais bem remunerado por causa disso, na dublagem todos recebem o mesmo valor. Esse valor é determinado pela nossa tabela de dublagem. Em raros casos, pode-se negociar um cachê diferenciado para um trabalho específico. Em geral, um dublador mais antigo vai receber por hora o mesmo que quem está começando. E, neste período de escassez de trabalho, às vezes quem só faz papéis pequenos, por que está começando na profissão agora, consegue receber até mais do que os antigos, que, às vezes, só são escalados para dublar seus bonecos, seus fixos de série e não os papéis pequenos.