Arquivo de 28 de Junho de 2008

Mais uma excelente matéria do Rodrigo Fonseca para o Blog do Bonequinho do Jornal O Globo Online, sobre a direção de dublagem do filme “Wall-E”. Confira na íntegra o texto a seguir:

O Globo Online: Dirigindo as vozes de “Wall-E”

Voz brasileira de Peter Parker, na franquia “Homem-Aranha”, Manolo Rey, um dos mais prolíficos astros das versões brasileiras dos blockbusters hollywoodianos, foi o responsável pela direção de dublagem do encantador “Wall-E”, que estréia no fim de semana (confira outros lançamentos nos cinemas brasileiros). A produção, de contornos poéticos, ganha ainda mais lirismo em sua “encarnação” dublada graças ao esmero de Rey em preservar o tom poético do filme de Andrew Stanton. Rey convocou Cláudio Galvan para recriar os acordes robóticos do construto cibernético que estrela a nova animação da Pixar. A andróide Eva ganhou o gogó da talentosa Sylvia Salustti. O longa-metragem conta ainda com os dubladores Carlos Seidl, Eduardo Borguerth, Carla Pompílio, Guilherme Briggs, Priscila Amorim e Reginaldo Primo.

Com formação teatral no Tablado, onde estudou de 1982 a 1984, Rey estreou como dublador dois anos depois, no elenco vocal de “Os aventureiros do bairro proibido”. Vez por outra, ele pode ser ouvido nos filmes de Leonardo DiCaprio, como acontece em “Prenda-me se for capaz”. Atualmente, ele dirige a versão brasileira de “Zohan - O agente bom de corte”, capitaneando a dublagem de Alexandre Moreno como Andam Sandler. Nesta entrevista, ele explica como é pilotar a adaptação de uma animação da Disney para a língua portuguesa.

A foto de Manolo foi clicada por Ricardo Juarez, dublador brasileiro de Will Ferrell

O GLOBO ONLINE: Por conta de todo o preconceito existente contra a dublagem, existe uma enorme dificuldade entre os leitores de compreender o que significa direção em dublagem. Como é, na prática, o ofício de dirigir uma versão brasileira?

MANOLO REY: A direção consiste em reger atores, como um maestro rege a orquestra. No caso, como os atores de dublagem não vêem o filme antes, o diretor deve passar a idéia exata do que ele quer em cada cena. A escalação é uma etapa muito importante. Um dublador escalado para o papel errado, ainda que seja um papel pequeno, pode prejudicar a qualidade de todo o filme. Isso, sim, gera o preconceito. Vemos muitas escalações equivocadas.

O GLOBO ONLINE: Que parâmetros estéticos são considerados em uma dublagem para uma animação da Disney? Existem termos que devem ser evitados nos diálogos no ato da tradução ou nos improvisos de bancada?

MANOLO REY: Quanto à direção de uma animação da DISNEY, eu diria que o principal é tentar passar o sonho, vender um novo mundo. Lembro que, quando criança, eu lia todas as revistinhas da Disney, como “Tio Patinhas”, “Pato Donald”, “Zé Carioca” e “Almanque Dinsey. Na época, imaginava aquelas cenas, aquelas situações. Assim também funciona a dublagem. Temos que passar a verdade através do sonho. O sonho tem que ser verdadeiro. Evitamos alguns diálogos em função da classificação de cada projeto. Por exemplo, num projeto infantil, não tem nada a ver colocar um termo que tenha conotação sexual. Evitamos todo e qualquer tipo de cacófato, por exemplo: “Me jogar” (que soa como “Mijo gar”). Devemos sempre vigiar todo e qualquer improviso dos dubladores, pois, para aumentar falas, muitos dubladores acrescentam o nome do personagem, e, em algumas cenas, pode ser que os personagens não se conheçam. Isso é um erro.

O GLOBO ONLINE: Como se deu a escolha do elenco de dublagem de “Wall-E”?

MANOLO REY: A escolha de vozes para WALL-E ocorreu bem antes do processo de dublagem. Os testes foram feitos com o Garcia Jr (consagrado dublador de personagens como He-Man, que, atualmente, é diretor de criação da Disney). Ele coordenou todo o projeto. Na época, ele fez testes para dois personagens, o comandante e o piloto automático. Os outros, fui eu que escalei, seguindo critérios meus. Muitas vezes, a animação pode ser mais difícil. Já vi dublador querendo fazer desenho animado com vozes diferentes da sua voz normal. E, no caso de Wall-E, vemos que os personagens têm vozes normais. Só os robôs têm voz diferente. O que quero dizer? Simples, não existe voz de gordo. Mas, às vezes, acontece de um dublador querer fazer um “tipinho”, só porque o personagem é gordo, ou é magro, ou é feio, ou é bonito. Na animação, nem sempre se deve fazer tipo. Na Disney, explora-se a voz normal. Raramente, faz-se tipo. Trabalha-se com a voz normal, que se encaixa no personagem, e passa muito mais verdade. Eu gosto disso na Disney.

O GLOBO ONLINE: Como é o processo de dublagem de animações em relação a filmes com atores. A dificuldade é maior do que em animações como “Wall-E”?

MANOLO REY: Não diria que entre animação e filmes com atores há uma diferença no nível de dificuldade. Há estilos. Já vi animações dificílimas, e filmes com atores reais facílimos. Atualmente, dirijo uma série chamada “Grey’s anatomy”, que considero muito difícil, pois usa termos médicos que nunca são fáceis de falarmos. Falar palavras difíceis, interpretando e sincronizando ao mesmo tempo, é sempre uma dificuldade maior.

O GLOBO ONLINE: Sua voz é associada a personagens jovens, de forte apelo heróico. Que elementos dramáticos da arte de atuar você utiliza como referência na sua interpretação? Existem diferenças entre dublar um grande ator, como Leonardo DiCaprio, e um canastrão?

MANOLO REY: Eu procuro me reciclar sempre. Pelo menos uma vez por ano, eu faço alguma oficina de interpretação, seja para TV ou para teatro. Nos últimos dez anos, fiz 13 oficinas de interpretação para TV com o diretor Ignácio Coqueiro, de quem sou fã. Isso é muito importante para todo ator: estudar. Não devemos parar nunca de estudar e de aprender. Quanto a grandes atores e canastrões, sempre existe uma diferença. Interpretar canastrões sempre é mais difícil, pois, se melhorarmos a interpretação deles, podemos estragar o filme, e, se não melhorarmos, também podemos estragar. Por isso, todo cuidado é pouco. Quanto ao Leonardo DiCaprio, especificamente, eu dublei ele em “Romeu + Julieta”, e foi um prazer sem igual. Dublei um texto de Shakespeare com naturalismo. Assim foi no original. Assim procuramos fazer na dublagem.

O GLOBO ONLINE: Existe uma carência enorme em relação a um memorialismo da dublagem no Brasil. O site Clube Versão Brasileira (http://www.quem.dubla.com.br) tem sido uma alternativa no esforço de se produzir um banco de dados da dublagem nacional. Por que há tanta dificuldade de se criar uma história da dublagem neste país?

MANOLO REY: O site foi criado por mim, Clécio Souto, Mariangela Cantu e Guilherme Briggs, numa tentativa de registrar a memória da dublagem brasileira. Na realidade, eu já havia criado o Clube Versão Brasileira em 1990. Era uma caixa postal, de número 150 ou 151, não lembro com certeza. Publiquei essa caixa postal em várias revistas e jornais. Em pouco mais de três meses, eu recebi mais de mil cartas de pessoas querendo saber sobre os dubladores. Só parei porque começaram a chegar algumas cartas ofendendo, e, como entregava as cartas fechadas aos colegas, acabava ficando numa situação ruim. A dificuldade nem é tão grande assim, é mais uma questão de força de vontade. Vou te dar um bom exemplo. Há colegas que dizem: “Ah, não gosto de ficar registrando meus bonecos (atores estrangeiros). Não esquento com isso”. Mas quando um ator que eles dublam aparece dublado por outro, esses colegas se revoltam. Portanto, o problema todo é de força de vontade. Temos que correr atrás e fazer alguma coisa nós mesmos, sem esperar que todas as empresas de dublagem se reúnam e criem um órgão, como o IMDB (Internet Movie DataBase) para registrar todos os trabalhos. Isso jamais acontecerá.

O GLOBO ONLINE: Que grandes vozes da dublagem foram esquecidas?

MANOLO REY: Tantas e tantas. Vou citar alguns dubladores que já se foram e cujas vozes não ouço mais nas reprises da TV: Paulo Pinheiro, André Luiz, Sonia Ferreira, Nelly Amaral, Garcia Neto, Turelli, Marcos Miranda, Paulo Flores, André Filho, Newton DaMatta, a quem ainda ouvimos de vez em quando, e Alexandre Lillipiani. Há outros que simplesmente abandonaram a profissão, como Ioney (Silva, dublador do personagem Tutubarão) ou Sonia de Moares.

O GLOBO ONLINE: Como você vê o ofício da dublagem hoje neste período em que grandes canais a cabo investem em programações dubladas?

MANOLO REY: A perspectiva seria até boa, não fossem colegas que aceitam qualquer condição de trabalho, ainda que seja inferior às condições estabelecidas a partir de negociações feitas pelo sindicato. Atualmente, dirijo na Delart, e há empresas que cobram um terço do que é cobrado lá. Como conseguem? Simples, diretores, tradutores e dubladores aceitaram trabalhar por menos, e em condições contrárias às estabelecidas por nós. Acredito que a dublagem só vai crescer quando houver maior cobrança quanto à qualidade. O público tem que reclamar do que é ruim e elogiar o que gostou. Claro, isso deve acontecer sem bairrismo e sem preconceitos de qualquer tipo. Quando isso acontecer, teremos filmes e séries com dublagem de qualidade realmente.

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