Vai em paz, Pai Veio 171
2,337 visualizações

Foi-se embora a voz mais importante das favelas, principalmente as cariocas: Bezerra da Silva faleceu hoje às 8h15, de parada cardíaca em decorrência de uma infecção pulmonar. Comecei a ouvir as músicas do Bezerra assim que vim morar no Rio, buscando me integrar mais à rotina da cidade e sua cultura. Tenho inclusive alguns CDs dele em casa e outras tantas músicas em MP3, que baixei da internet. Ele me cativou pelas letras “malandras” que vêm na música, falando sobre o cotidiano do carioca que trabalha e sofre, do malandro que quer sempre passar a perna nos “irmãos”, da polícia, dos morros… Enfim, o cara era uma cabeça pensante rara e uma coisa até bem difícil de acontecer: era reconhecido por isso. Agora, virou história e junta-se a outros malandros que já se foram. Vai em paz, Pai Véio 171. Vai fazer falta…
A Semente
Meu vizinho jogou uma semente no seu quintal
De repente brotou um tremendo matagal
Quando alguém lhe perguntava: “Que mato é esse que eu nunca vi?”
Ele só respondia: “Não sei, não conheço, isso nasceu aí…”
Mas foi pintando sujeira, o patamo estava sempre na jogada
Porque o cheiro era bom e ali sempre estava uma rapaziada
Os homens desconfiaram ao ver todo dia uma aglomeração
E deram o bote perfeito e levaram todos eles para averiguação, e daí…
Na hora do “sapeca-iaiá” o safado contou:
“Não precisa me bater que eu dou de bandeja tudo pro senhor
Olha aí eu conheço aquele mato, chefia, e também sei quem plantou”
Quando os federais grampearam e levaram o vizinho inocente
Na delegacia ele disse: “Doutor, não sou agricultor. Desconheço a semente…”
Bezerra da Silva sempre foi o porta-voz do morro, dos compositores das comunidades menos favorecidas que ele frequentava em busca de repertório composto por motoristas, biscateiros, faxineiros e representantes de muitas outras profissões que transformavam seu cotidiano em música.
Ele tinha fixação em alguns temas, como a traição amorosa, as drogas e o código de silêncio dos morros. Este último era bastante polêmico, porque reforçava o código de terror pelo silêncio que o narcotráfico impõe nas comunidades onde se infiltra e domina. Seu bordão mais conhecido era o “malandro é malandro, mané é mané”, e ele foi o responsável pela popularização de muitas gírias da malandragem. Estar com dinheiro era estar com o buraco de pano dando risada, avião era urubu de ferro, café era chá de bule, ir embora era cantar pra subir, polícia era Kojak e muitas outras que viraram voz corrente depois como presunto, 171, Ricardão, coisa ruim, fraga (flagrante), cana dura, muvuca etc. Mas Bezerra sempre questionou quem o chamava de malandro.
- O pobre é mané! Malandros são os que têm curso superior e ficam em prisão especial, os que têm imunidade parlamentar e outros tantos espertos – dizia.
José Bezerra da Silva nasceu em Recife, no dia 9 de março de 1938, e aos 15 anos, em busca de uma vida melhor, partiu para o Rio de Janeiro num navio que carregava açúcar. Trabalhou como pintor de paredes e em 1950 começou sua carreira na música, primeiro como percussionista na Rádio Clube, depois como compositor – teve músicas gravadas por Jackson do Pandeiro. Só gravou seu primeiro compacto como cantor em 1969. O primeiro LP foi lançado apenas em 1975 – nele, em vez do samba que o consagrou, Bezerra cantava cocos, influenciado por Jackson.
Como sambista e partideiro, Bezerra acumulou sucessos, entre eles “Malandragem dá um tempo”, “Seqüestraram minha sogra”, “Defunto cagüete”, “Bicho feroz”, “Overdose de cocada”, “Pai véio 171″. Nos últimos anos, passou a ser citado como referência por músicos de gerações mais novas, como Marcelo D2, O Rappa e Barão Vermelho.
O humor sempre esteve presente na obra de Bezerra, como no CD “Os Três Malandros In Concert”, que ele, Dicró e Moreira da Silva lançaram em 1995, uma paródia ao show dos tenores Pavarotti, Domingo e Carreras.
Em 1998, o sambista virou tema de livro com “Bezerra da Silva – Produto do morro”, de Letícia Vianna. Três anos depois, os diretores Márcia Derraik e Simplício Neto lançaram o documentário “Onde a coruja dorme”, sobre a obra de Bezerra, mostrando os compositores dos sambas que ele gravava – nomes como Tião Miranda, Moacyr Bombeiro, Adelzonilton e 1.000 Tinho. Em 2003, Bezerra lançou o clipe de “A semente”, o primeiro de sua carreira.
Recentemente, Bezerra passou a freqüentar a Igreja Universal do reino de Deus. Mas continuou gravando, fazendo seus shows e não via conflitos entre sua opção religiosa e o seu repertório.
- Jesus Cristo não atrasa o lado de ninguém e esse é o meu trabalho – disse certa vez.
Assombração de Barraco
Olhaí eu já ando enjuriado, ô xará
Meu salário defasado, meu povo todo esfomeado
E ainda é intimado a votarVejam que essa previdência não tem competência pra ser social
O trabalhador adoece e morre na fila do hospital
Enquanto uma pá de aspone, que dorme e come mamando na teta
E os PCs na mamata sempre fazendo mutreta
Roubando o dinheiro do povo e mandando pra Suíca na maior caretaIsso é que é covardia, que me arrepia e me faz chorar
É fraude por todos os lados e ninguém consegue grampear os culpados
É que na realidade a impunidade campeia demais
E uma pá de cheque-fantasma assustando o Planalto Central
Assombração de barraco é o ladrão de gravata e não é marginal(Isso é que é um arco íris…
Isso é que é uma rapaziada honesta…
Isso é que é uma rapaziada legal…
Isso é que não vai pro Bangu I!
Isso é que é uma pá de filhos da pátria!
Isso é que é foda!
Isso é que é um bando de… uns e outros!)
Playlist do Winamp – Homenagem a Bezerra da Silva
- A lei do morro
- A semente
- Acordo de Malandro
- As 40 DPs
- Assombração de barraco
- Bicho Feroz
- Candidato Caô-Caô
- Cobra criada
- Dando mole pra Kojak
- Defunto cagüete (lê-se ca-gu-ê-te)
- Defunto grampeado
- É o bicho é o bicho
- Ele cagüeta com o dedão do pé
- Esse aí que é o homem
- Filho de mãe solteira
- Flamengo e Mangueira
- Foi o doutor delegado
- Malandragem dá um tempo
- Malandro é malandro e mané é mané
- Malandro não vacila
- Maloca o flagrante
- Meu bom juiz
- Minha sogra parece sapatão
- O vacilão
- Olha o boi
- Os direitos do otário
- Overdose de cocada
- Pagode na casa do gago
- Pai véio 171
- Passa o rodo nele
- Quando morcego doar sangue
- Quem usa antena é televisão
- Ressuscita ele
- Roubo do cabrito
- Se Leonardo dá vinte
- Se liga doutor
- Sequestraram minha sogra
- Sobrou caixão
- Sou favela
- Sua cabeça não passa na porta
- Tem coca aí na geladeira
- Velha demais
- Verdadeiro canalha
- Zé Fofinho de Ogum

Regras para os comentários:
1. Comentários de anônimos e/ou com e-mails inválidos serão apagados. Se quiser falar besteira ou ofender o autor, ao menos se identifique.
2. Já existe um campo reservado para você colocar o link do seu site/blog. Comentários com qualquer tipo de link são deletados, mesmo que o link seja relacionado ao conteúdo do post.
3. Eu tento, sempre que possível escrever corretamente e gostaria que vocês, meus leitores, fizessem o mesmo. Comentários escritos em miguxês e com texto inteiro em caixa alta não serão aprovados.
4. Antes de comentar, tenha certeza de que você entendeu o que acabou de ler, para que possa fazer um comentário relevante e dentro do contexto.
5. Modere no uso de palavrões ou expressões vulgares.
6. Comentários abusivos, difamatórios, racistas ou que constituem algum crime previsto na lei brasileira serão apagados. Para denunciar qualquer abuso, entre em contato comigo. Caso alguma infração seja constatada, apagarei o comentário imediatamente.
* As opiniões expostas nos comentários não refletem as do autor deste blog.
Como configurar seu avatar:
1. Clique aqui para cadastrar seu email.
2. Adicione o e-mail que você utiliza em seus comentários e click em Sign up.
3. Você receberá um email de confirmação, siga os passos e complete o cadastro.
4. Faça upload da sua imagem e pronto, seu avatar estará disponível em todos os sites com suporte ao Gravatar.
É uma pena…
Ei, Dan… poise´… pelo jeito vou ter que ir para aí mesmo…
quanto a onde vou morar… bem que vc poderia me dar algumas dicas, heim… conhece alguém querendo dividir apto? toda ajuda será bem vinda
Abraços, moço!
“Bezerra da Silva é um cara tão maçlandro que morreu njo dia 17 do 1, o próprio 171. Vai ser malandro assim lá no céu!!”
- Dicró.